O que está errado no Blender e o que está errado nos humanos

Nos últimos dias, Andrew Price (do site de tutoriais Blender Guru) postou uma série de vídeos explicando de forma extremamente factual e didática os problemas de usabilidade da interface atual do Blender e sua proposta de solução. Isso foi o suficiente para gerar uma verdadeira torrente de reações negativas dentro da comunidade. Embora tais reações sejam de uma minoria, elas revelam alguns aspectos obscuros dos projetos Open Source (que, por serem feitos por seres humanos, estão sujeitos as falhas de caráter humanas), que as vezes se tornam muito difíceis de ignorar:

  1. Elitismo.
  2. autoritarismo.
  3. sabotagem.

O elitismo se manifesta principalmente na forma de agressões (veladas ou não) contra os novatos e/ou não-iniciados. É um fenômeno conhecido e que sempre impactou profundamente a adoção de software livre. Tenho uma impressão forte que existe gente que acredita piamente que dificuldade de uso é uma espécie de mal necessário, que deve ser preservado, e quem não concorda é preguiçoso, ignorante, ou não pretende usar o software mesmo.

O autoritarismo exibiu a sua face horrível através de comentários de comentários que podem ser resumidos em “fale menos, dê mais dinheiro”, chegando ao ponto de um site exibir uma imagem de uma garota com a boca tapada com fita adesiva com “#talklessfundingmore” sobreposto. Imaginar o usuário (que contribui com o dinheiro) com impedido de se expressar dessa forma é a demonstração mais clara do autoritarismo.

Por fim, a sabotagem é uma prática tristemente comum na indústria de software. Tanto ocorre externamente (como a difamação de projetos Open Source feita por blogueiros pagos por fornecedores de software proprietário), quanto internamente. A autossabotagem geralmente consiste em manter uma característica apontada como absurda pelo senso comum, o que impede que o software tenha adoção real pela indústria e se torne ameaça ao similar proprietário.

A interface do Blender passou por muitas melhorias nos últimos anos, mas ela é uma barreira logo no contato inicial, pois ignora diversas convenções de usabilidade. Algumas delas que Andrew Price levantou são:

  1. A falta de aviso ao sair se há modificações a serem salvas.
  2. A seleção ser feita com o botão direito do mouse (enquanto praticamente a convenção geral é usar o botão esquerdo, o do dedo indicador)
  3. Baixo contraste na visualização.
  4. fontes de letra pequenas demais.

Curiosamente, vários desses problemas podem ser resolvidos mudando os defaults do software, sem a necessidade de desenvolvimento associado, o que torna inexplicável que tais problemas existam, a não ser que sejam propositais (teoria da autossabotagem).

Mais curiosamente ainda, o fato da aplicação não avisar que existem dados não salvos, algo que até o Bloco de Notas faz. Não vi argumentação a favor desse comportamento, mas gostaria de ver como tal absurdo seria defendido.

O líder da Blender Foundation, Ton Roosendaal, respondeu a questão simplesmente não respondendo, através de argumentos abstratos como complexidade e que o software é feito para quem já usa.

Uso Blender a quatro anos, e considero o software excelente de várias formas, porém algo que sempre me incomodou é olhar na “galeria de honra” de sites CGSociety (e até no próprio Blender Guru) é ter poucas obras feitas em Blender. Para isso mudar, é preciso que os usuários se concentrem em serem menos tecnológicos e mais artísticos.

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