Sempre evitei escrever sobre política, mas me revoltou a forma como a tragédia que ocorreu na escola em Realengo foi espoliada na mídia pelas duas facções políticas dominantes no país.
Amnésia e encenação
A política brasileira é, por mais estranho que pareça, muito apolítica, com políticos que mudam de partido e de opinião a vontade conforme recebem para isso, sem se preocupar com coerência com o que disseram ou fizeram antes (a falta de memória do Brasil ajuda muito nisso). E a maioria dos partidos é muita parecida, chegando ao ponto de termos vários que se dizem social-democratas.
Hienas e abutres
Logo no dia do massacre, a mídia noticiou vários detalhes, que depois se mostraram falsos, nitidamente com o objetivo de manipular a opinião pública contra determinados alvos. Primeiro, disseram que o atirador era muçulmano, depois passaram a apresentar conclusões prontas sobre o perfil do atirador (imagino dificuldade deve ser entrevistar um morto para poder compor o quadro), que ele teria feito o que fez porque teria sido vítima de bullying e que a culpa era da sociedade opressora, que tinha que mudar. O difícil é explicar como isso só ocorreu uma vez. E ainda foi dito várias vezes que a escola deveria ser fechada, sem informar quem tinha dito isso.
Nos dias que se seguiram, vendo que a tática não estava funcionando, o discurso foi mudando para uma forma mais branda, admitindo que o criminoso tinha um transtorno psíquico, mas que o bullying pode ter contribuído para agravar o quadro.
Tentar transformar vítima um monstro desses mostra que as pessoas já perderam totalmente a noção do razoável, no desespero de tentar encontrar formas de atacar a outra facção.
Ver o mesmo discurso e os mesmos truques baratos para persuadir a população nos porta-vozes dos dois grupos, a Globo e o Conversa Afiada, é sinal que algo está muito errado. Se você quer ser melhor do que o adversário, então você tem que pelo menos diferente dele em alguma coisa e não praticar os mesmos deslizes, como se aproveitar da desgraça alheia, certo?
Pedofobia e misoginia
Outro ponto é que certas informações (reais e importantes) foram passadas de forma displicente, porque não corroboram as idéias que a mídia queria vender. Para mim, é óbvio que o alvo do matador eram as meninas, pela diferença na quantidade de vítimas. As conclusões (e possíveis implicações) cabe as pessoas interessadas deduzirem. Eu já tirei as minhas.

