O atirador de Realengo e a manipulação política

Sempre evitei escrever sobre política, mas me revoltou a forma como a tragédia que ocorreu na escola em Realengo foi espoliada na mídia pelas duas facções políticas dominantes no país.

Amnésia e encenação

A política brasileira é, por mais estranho que pareça, muito apolítica, com políticos que mudam de partido e de opinião a vontade conforme recebem para isso, sem se preocupar com coerência com o que disseram ou fizeram antes (a falta de memória do Brasil ajuda muito nisso). E a maioria dos partidos é muita parecida, chegando ao ponto de termos vários que se dizem social-democratas.

Hienas e abutres

Logo no dia do massacre, a mídia noticiou vários detalhes, que depois se mostraram falsos, nitidamente com o objetivo de manipular a opinião pública contra determinados alvos. Primeiro, disseram que o atirador era muçulmano, depois passaram a apresentar conclusões prontas sobre o perfil do atirador (imagino dificuldade deve ser entrevistar um morto para poder compor o quadro), que ele teria feito o que fez porque teria sido vítima de bullying e que a culpa era da sociedade opressora, que tinha que mudar. O difícil é explicar como isso só ocorreu uma vez. E ainda foi dito várias vezes que a escola deveria ser fechada, sem informar quem tinha dito isso.

Nos dias que se seguiram, vendo que a tática não estava funcionando, o discurso foi mudando para uma forma mais branda, admitindo que o criminoso tinha um transtorno psíquico, mas que o bullying pode ter contribuído para agravar o quadro.

Tentar transformar vítima um monstro desses mostra que as pessoas já perderam totalmente a noção do razoável, no desespero de tentar encontrar formas de atacar a outra facção.

Ver o mesmo discurso e os mesmos truques baratos para persuadir a população nos porta-vozes dos dois grupos, a Globo e o Conversa Afiada, é sinal que algo está muito errado. Se você quer ser melhor do que o adversário, então você tem que pelo menos diferente dele em alguma coisa e não praticar os mesmos deslizes, como se aproveitar da desgraça alheia, certo?

Pedofobia e misoginia

Outro ponto é que certas informações (reais e importantes) foram passadas de forma displicente, porque não corroboram as idéias que a mídia queria vender. Para mim, é óbvio que o alvo do matador eram as meninas, pela diferença na quantidade de vítimas. As conclusões (e possíveis implicações) cabe as pessoas  interessadas deduzirem. Eu já tirei as minhas.

Nokia: uma história que se repete

A Nokia anunciou seu pacto com o demôn…, quer dizer, com a Microsoft, o que é (mais uma) facada do mundo corporativo no Software Livre. O pacto faz com que a Nokia abandone seus sistemas operacionais e as ferramentas de desenvolvimento, o que inclui o conhecido toolkit Qt, desenvolvido pela TrollTech, que foi adquirida pela Nokia a algum tempo atrás.

A Qt é usada por vários projetos (o mais relevante é provavelmente o KDE) e já causou muitas polêmicas no passado por questões de licenciamento.

O pacto em questão não é realmente uma ameaça – o Software Livre não precisa de corporações para existir (se precisasse, já teria morrido logo no inicio). É sempre possível fazer um fork da última versão e seguir outro caminho sem olhar para trás, como fez o LibreOffice, que é um fork que salva o OpenOffice das garras sinistras da Oracle. Já na primeira versão, a diferença no tempo de carga é impressionante.

Porém, essa é mais uma história que mostra que, ao contrário daqueles que pensam que é importante ter uma empresa grande bancando tudo (e eventualmente instaurando a burocracia habitual), o Software Livre não deve ficar atado a corporações, pois estas mudam de direcionamento, são compradas, vendidas e/ou fecham.

Em relação ao pacto em si, vejo uma grande falha estratégica: a Nokia perdeu um diferencial importante, e em troca recebeu um sistema que segue a filosofia oposta a deles.

Caso VLC x Apple: quem são os verdadeiros vilões

Hoje vi (mais) um artigo que tenta vilanizar o desenvolvedor do VLC (versão desktop) que enviou uma mensagem a Apple apontando a discrepância entre a licença livre do VLC e as regras da lojinha de software do iPhone.

O VLC Mobile é um fork do VLC tradicional, feito por outro grupo de desenvolvedores, que enviaram o programa para a lojinha da Apple, e que evidentemente, não sabem nada sobre o significa a GPL.

A Apple retirou o VLC de seu catalogo, o que causou vários resmungos entre os usuários do sistema proprietário (e que também não entendem o que significa a GPL). Só que esses resmungos foram dirigidos contra o desenvolvedor, e não contra as regras tirânicas da Apple (empresa famosa por conquistar o público com produtos bonitos e depois assassinar a galinha dos ovos de ouro tentando espoliar o mesmo público conquistou).

As condições nas licenças no Software Livre tem um papel similar a constituição numa democracia. Nenhuma democracia se sustenta se não houver dispositivos (como o direito ao voto e a liberdade de expressão) que garantam que ela continue sendo uma democracia.

Me preocupa muito toda essa forma de pensar, que parece a ser a dominante na Internet e na mídia em geral nos últimos anos, que tenta tornar natural:

  • Uma corporação ter o poder para impor o que você pode ou não fazer com o produto dela DEPOIS da venda.
  • Ter uma atitude chamada “visão pragmática”, que disfarça a falta de ideais com falácias, e que sempre pende a favor de formas de espoliação (exemplos: software proprietário, licenças de uso abusivas, violações de privacidade).
  • Achar o máximo o sucesso econômico de produtos medíocres com embalagens engenhosas, porém desprovidos de inovação (exemplos: Facebook, as cantoras fabricadas pela Disney, Smartphones com especificações anacrônicas).

Qualquer atitude contrária é vista como “idealismo”, e de, alguma forma, isto hoje é visto como demérito, radicalismo, a “falha” de ter princípios. Parece que essas pessoas tem como grande objetivo na vida ganhar mais para poder dar mais dinheiro para bilionários gananciosos como Steve Jobs.

Temo pelo futuro do Software Livre numa sociedade em que o exemplo máximo de comportamento é dar dinheiro para os grandes tubarões por produtos fabricados por chineses explorados até o suicídio, enquanto acha que está ajudando o meio-ambiente abraçando árvores. E depois poder bater no peito dizendo: “eu tenho dinheiro para isso!” …