Concurso para a nova Splash Screen do Blender

Splash Screen é aquela imagem que aparece quando o software está carregando. Nas versões recentes, o Blender usou imagens excelentes do Sintel Open Movie, mas para a próxima foi organizado um concurso (com juri, sem votação popular). O concurso pode ser acompanhado nesta discussão no BlenderArtists.org. É possível concorrer com quantos itens quiser, desde seguindo as regras

Resolvi concorrer com as notórias engrenagens habituais (link para o original na imagem):

Robots quase tão habituais quanto:

Uma fábrica:

E mais um robot habitual em close:

E mais engrenagens:

O mais chato foi ter aturar o sistema anti-spam do site, para poder postar imagens, é regra demais… Algumas splashes são excelentes, incluindo umas que eu gostei mais do que das minhas :)

Atualização 1: as inscrições acabaram dia 27 de Março. E parece que só sai o resultado quando sair a versão final…

Atualização 2: trocaram a splash no primeiro commit da versão estável, a escolhida pode ser vista aqui.

Nokia: uma história que se repete

A Nokia anunciou seu pacto com o demôn…, quer dizer, com a Microsoft, o que é (mais uma) facada do mundo corporativo no Software Livre. O pacto faz com que a Nokia abandone seus sistemas operacionais e as ferramentas de desenvolvimento, o que inclui o conhecido toolkit Qt, desenvolvido pela TrollTech, que foi adquirida pela Nokia a algum tempo atrás.

A Qt é usada por vários projetos (o mais relevante é provavelmente o KDE) e já causou muitas polêmicas no passado por questões de licenciamento.

O pacto em questão não é realmente uma ameaça – o Software Livre não precisa de corporações para existir (se precisasse, já teria morrido logo no inicio). É sempre possível fazer um fork da última versão e seguir outro caminho sem olhar para trás, como fez o LibreOffice, que é um fork que salva o OpenOffice das garras sinistras da Oracle. Já na primeira versão, a diferença no tempo de carga é impressionante.

Porém, essa é mais uma história que mostra que, ao contrário daqueles que pensam que é importante ter uma empresa grande bancando tudo (e eventualmente instaurando a burocracia habitual), o Software Livre não deve ficar atado a corporações, pois estas mudam de direcionamento, são compradas, vendidas e/ou fecham.

Em relação ao pacto em si, vejo uma grande falha estratégica: a Nokia perdeu um diferencial importante, e em troca recebeu um sistema que segue a filosofia oposta a deles.

Caso VLC x Apple: quem são os verdadeiros vilões

Hoje vi (mais) um artigo que tenta vilanizar o desenvolvedor do VLC (versão desktop) que enviou uma mensagem a Apple apontando a discrepância entre a licença livre do VLC e as regras da lojinha de software do iPhone.

O VLC Mobile é um fork do VLC tradicional, feito por outro grupo de desenvolvedores, que enviaram o programa para a lojinha da Apple, e que evidentemente, não sabem nada sobre o significa a GPL.

A Apple retirou o VLC de seu catalogo, o que causou vários resmungos entre os usuários do sistema proprietário (e que também não entendem o que significa a GPL). Só que esses resmungos foram dirigidos contra o desenvolvedor, e não contra as regras tirânicas da Apple (empresa famosa por conquistar o público com produtos bonitos e depois assassinar a galinha dos ovos de ouro tentando espoliar o mesmo público conquistou).

As condições nas licenças no Software Livre tem um papel similar a constituição numa democracia. Nenhuma democracia se sustenta se não houver dispositivos (como o direito ao voto e a liberdade de expressão) que garantam que ela continue sendo uma democracia.

Me preocupa muito toda essa forma de pensar, que parece a ser a dominante na Internet e na mídia em geral nos últimos anos, que tenta tornar natural:

  • Uma corporação ter o poder para impor o que você pode ou não fazer com o produto dela DEPOIS da venda.
  • Ter uma atitude chamada “visão pragmática”, que disfarça a falta de ideais com falácias, e que sempre pende a favor de formas de espoliação (exemplos: software proprietário, licenças de uso abusivas, violações de privacidade).
  • Achar o máximo o sucesso econômico de produtos medíocres com embalagens engenhosas, porém desprovidos de inovação (exemplos: Facebook, as cantoras fabricadas pela Disney, Smartphones com especificações anacrônicas).

Qualquer atitude contrária é vista como “idealismo”, e de, alguma forma, isto hoje é visto como demérito, radicalismo, a “falha” de ter princípios. Parece que essas pessoas tem como grande objetivo na vida ganhar mais para poder dar mais dinheiro para bilionários gananciosos como Steve Jobs.

Temo pelo futuro do Software Livre numa sociedade em que o exemplo máximo de comportamento é dar dinheiro para os grandes tubarões por produtos fabricados por chineses explorados até o suicídio, enquanto acha que está ajudando o meio-ambiente abraçando árvores. E depois poder bater no peito dizendo: “eu tenho dinheiro para isso!” …

Tecnologias para uma geração sem rebeldes

Uma das características que sempre me chamou a atenção no Software Livre é a importância de ser justo com o usuário do software.

Informática é uma área em que este princípio é violado de diversas formas, seja através de controles de licença que oneram o usuário legalizado, ou por cobranças absurdas por atualizações para consertar falhas pelas quais o usuário não tem responsabilidade, ou por formas de licenciamento que impedem cópias de backup, entre outros.

De alguns anos para cá, parece que a cultura do usuário médio mudou para aceitar mais fácil ser enganado e explorado pelos fornecedores. Assim, equipamentos são vendidos como topo de linha quando não são (exemplo: Apple), empresas compram seus concorrentes para destruir os produtos dos concorrente (Oracle / Sun), fornecedores usam poder econômico para prejudicar iniciativas de padronização internacionais (Microsoft) e não há nenhuma reação real.

Antigamente, todas essas práticas imorais (e as vezes ilegais) já aconteciam, mas era evidente que o público (ou pelo menos uma parte dele com mais conhecimento técnico) criticava e execrava tais comportamentos, principalmente as pessoas envolvidas com Software Livre.

Hoje, o que mais vejo na Internet é a falta de reação ou mesmo o apoio a essas práticas, de uma forma que transparece vários adjetivos ruins: consumismo, complacência, acomodação, conformismo, descaso, … Entre as formas de apoio, uma das mais perniciosas é o artigo pago por fornecedor (não identificado como tal) em blogs de noticias. Muitas vezes, esse comportamento é justificado por racionalizações pseudo-pragmáticas em que o dinheiro é posto como a única coisa com valor no mundo: “não dá para viver de ideais”, me disseram, “dá para viver sem ter ideais?”, respondi.

Enquanto na geração anterior, soluções abertas geralmente suplantavam no mercado as tecnologias fechadas (PC vs Mac, TCP/IP vs IPX, Internet vs AOL, … ), agora, produtos proprietários que tiranizam os usuários parecem ter virado regra. Com isso, fazem sucesso aparelhos portáteis que não tem porta USB (Apple), e que as vezes tem especificação inferior aos modelos anteriores (Samsung).

Com a popularização da Internet e de equipamentos portáteis, surgiu uma nova roupagem para uma idéia antiga, que naufragou junto com os computadores de grande porte e várias vezes tentou voltar a ser relevante: o uso de máquinas poucos potentes, muitas vezes chamadas de thin clients, para acessar máquinas mais robustas, com administração centralizada.

A computação em nuvem (cloud computing) facilita ao fornecedor ler, indexar, produzir estatísticas a partir dos arquivos dos usuários e vender os resultados dessas análises a outras corporações, além do próprio dado bruto. E, tal como nos outros exemplos, não há grande reação em relação a isso, tirando Richard Stallman e outros poucos corajosos que ainda conseguem se manter discordantes na era em que a maioria parece mais preocupada em ser popular nas redes sociais.