Uma das características que sempre me chamou a atenção no Software Livre é a importância de ser justo com o usuário do software.
Informática é uma área em que este princípio é violado de diversas formas, seja através de controles de licença que oneram o usuário legalizado, ou por cobranças absurdas por atualizações para consertar falhas pelas quais o usuário não tem responsabilidade, ou por formas de licenciamento que impedem cópias de backup, entre outros.
De alguns anos para cá, parece que a cultura do usuário médio mudou para aceitar mais fácil ser enganado e explorado pelos fornecedores. Assim, equipamentos são vendidos como topo de linha quando não são (exemplo: Apple), empresas compram seus concorrentes para destruir os produtos dos concorrente (Oracle / Sun), fornecedores usam poder econômico para prejudicar iniciativas de padronização internacionais (Microsoft) e não há nenhuma reação real.
Antigamente, todas essas práticas imorais (e as vezes ilegais) já aconteciam, mas era evidente que o público (ou pelo menos uma parte dele com mais conhecimento técnico) criticava e execrava tais comportamentos, principalmente as pessoas envolvidas com Software Livre.
Hoje, o que mais vejo na Internet é a falta de reação ou mesmo o apoio a essas práticas, de uma forma que transparece vários adjetivos ruins: consumismo, complacência, acomodação, conformismo, descaso, … Entre as formas de apoio, uma das mais perniciosas é o artigo pago por fornecedor (não identificado como tal) em blogs de noticias. Muitas vezes, esse comportamento é justificado por racionalizações pseudo-pragmáticas em que o dinheiro é posto como a única coisa com valor no mundo: “não dá para viver de ideais”, me disseram, “dá para viver sem ter ideais?”, respondi.
Enquanto na geração anterior, soluções abertas geralmente suplantavam no mercado as tecnologias fechadas (PC vs Mac, TCP/IP vs IPX, Internet vs AOL, … ), agora, produtos proprietários que tiranizam os usuários parecem ter virado regra. Com isso, fazem sucesso aparelhos portáteis que não tem porta USB (Apple), e que as vezes tem especificação inferior aos modelos anteriores (Samsung).
Com a popularização da Internet e de equipamentos portáteis, surgiu uma nova roupagem para uma idéia antiga, que naufragou junto com os computadores de grande porte e várias vezes tentou voltar a ser relevante: o uso de máquinas poucos potentes, muitas vezes chamadas de thin clients, para acessar máquinas mais robustas, com administração centralizada.
A computação em nuvem (cloud computing) facilita ao fornecedor ler, indexar, produzir estatísticas a partir dos arquivos dos usuários e vender os resultados dessas análises a outras corporações, além do próprio dado bruto. E, tal como nos outros exemplos, não há grande reação em relação a isso, tirando Richard Stallman e outros poucos corajosos que ainda conseguem se manter discordantes na era em que a maioria parece mais preocupada em ser popular nas redes sociais.