Grandes Embustes (parte 2) : “Free as in Speech”

Esse é um tema a ser tratado com um certo cuidado. Do jeito que o título desse texto está escrito, ele certamente torna o texto sujeito a polêmica, um “flame bait“. Mas a verdade é que essa associação do software livre com liberdade de expressão (o ‘free speech’) e disassociação de gratuito é fonte de enorme confusão e na medida em que se tornou difícil de discutir o assunto, passou a ser deliberadamente usado como embuste.

Para contextualizar, essa idéia foi divulgada pelo próprio Richard Stallman, diante da dificuldade da língua inglesa de diferenciar em “free” o sentido de “gratuito” de “livre”, o que é a pura verdade, software livre é muito mais que software gratuito. O problema é que infelizmente os acertos param por ai.

A tentativa de explicar do Stallman na verdade não é exatamente bem sucedida. O livre em software livre é como o livre de liberdade de expressão? Não exatamente. Na verdade, o livre de liberdade de expressão não é citado como uma analogia direta, mas apenas como uma forma de expandir o conceito do “free” além do mero “gratuito”. E não poderia ser uma analogia direta mesmo. Por exemplo, a liberdade de expressão permitiu ao Michael Moore ganhar dinheiro fazendo um filme com críticas ao Bush, mas isso nada tem a ver com o copyright ou com a distribuição do filme.

Não que o Stallman estivesse tentando confundir ninguém, muito pelo contrário, ele se deparou com uma limitação lingüística mesmo. O grande embuste vem de grupos com interesses comerciais muito tempo depois se aproveitaram da confusão para tornar reducionista uma idéia que visava expandir um conceito.

O conceito de software livre almeja a liberdade, o que é muito mais que gratuidade. Entretanto, existem leis econômicas em ação que tornam o custo de um software livre realmente muito próximo do zero. Isto é, ser (quase) gratuito é uma conseqüência de ser um software livre, apesar de não ser o objetivo principal. É uma verdade econômica inescapável, mesmo com inúmeros membros da comunidade de software livre não gostando dessa visão e já tendo até se manifestado contrários a ela.

Não estou querendo dizer que não se possa cobrar por suporte ou serviços associados ao software livre, vamos deixar isso bem claro. Só que isso não pode ser feito recriando o modelo comercial de licença unitária e restritiva de uso,  antagônico ao software livre.

Isso é uma idéia um pouco incômoda para quem quer, por exemplo, vender licenças de uso de GNU/Linux (ou contratos de serviço, ou qualquer outra chatice de eufemismo…) a 500 dólares “per seat“. O que fazer então? Repetir, repetir e repetir: Software Livre não é Sofware gratuito! Não caia nesse embuste. Sofware Livre não é *somente* software gratuito. É muito mais que isso, é software gratuito, amplamente disponível com fonte junto, com muito mais “valor agregado”, para usar a linguagem desses marketeiros embusteiros.

Ignorar isso é correr o risco de aceitar práticas imorais de subverter a natureza do Software Livre – coisas do tipo “essa distribuição de GNU/Linux custa $500 a cópia porque o instalador não é Software Livre”; “porque apesar de distribuir usando licença livre eu tento proibir o usuário de exercer seu direito através de direitos de Marca, de patentes, ou de qualquer outro contra-senso”; “porque eu só distribuo de graça o fonte (e ninguém tem como saber se ele é igual ao binário) e/ou não atualizo o fonte direito”; etc. Isso para não falar na ineficiente estratégia de ficar resmungando a respeito da pessoa, revista ou website que insiste em redistribuir o software cujo próprio autor pré-aprovou a redistribuição.

Tais práticas fogem da essência software livre e também de todos os seus benefícios. Uma distribuição onde a versão “enterprise” não está disponível para um estudante desempregado nunca será popular e nunca vai se beneficiar do bom suporte de uma comunidade.  Além disso, também é ruim a mensagem errada que é passada para os iniciantes, sugerindo que o “melhor” é uma versão com acesso restrito.

Elas também podem colocar em risco o andamento de bons projetos de Software Livre associados, até por simplesmente não lembrar aos autores de buscar um modelo de financiamento adequado (seja baseado em dinheiro, reputação ou o que for) que muitas vezes  facilmente poderia ser obtido e mantê-los atrelados ao modelo errado.  É importante lembrar que toda empresa que enveredou por esse caminho perdeu popularidade.

Enfim, é importante entender que o Software Livre está na vanguarda da economia [1] e que sua natureza (também) gratuita é um tremendo indicador de força e não o contrário.

[1] – Sincronicidade… Enquanto estava escrevendo acabei encontrando o artigo na Wired:

http://www.wired.com/techbiz/it/magazine/16-03/ff_free?currentPage=all

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