Grandes Embustes (parte 3) : “Raça e Racismo”

Dividir grupos humanos em raças é um dos embustes mais poderosos já feitos até hoje. Por ser uma aplicação de uma técnica de controle muito eficiente (dividir para conquistar), foi largamente utilizada, sobrepondo até mesmo o conceito de nacionalidade, outra forma poderosa de segregação humana. Esta só começou a realmente se reforçar depois da Segunda Guerra Mundial. Com a globalização, a nacionalidade passou a ser a forma de segregação humana preferencial e o racismo uma inconveniência desnecessária, uma comportamento fora de moda.

Ainda assim, o racismo se mantém latente em quase todo o mundo, apoiado em condicionamentos culturais, sociais e econômicos. Por sua inconveniência ele é marginalizado, mas ele continua fazendo estrago, causando sofrimento aos discriminados ao ser usado por políticos de “nicho” como alavanca para chegar ao poder e sendo uma armadilha para todos. Para se ter uma idéia da dimensão do poder do embuste em enganar as mentes mais capazes, em outubro do ano passado, James D. Watson, prêmio Nobel, co-descobridor da estrutura do DNA terminou sua carreira após a má repercussão de uma lamentável entrevista recheada de comentários racistas.

A ciência, diga-se de passagem, não tem um passado limpo com relação a esse embuste. Milhares de estudos já foram feito “provando” a superioridade dos europeus em relação aos outros povos. Hoje em dia, depois da conclusão do Projeto Genoma e de todos avanços na área, a ciência descarta o conceito de raças. Mas a divulgação para o grande público é tão objetiva quanto a divulgação de estudos sobre o efeito de comidas em dietas, por exemplo. Uma hora somos praticamente idênticos ao chimpanzés (99.9%) e clones uns dos outros em relação as outras espécies. Agora, nosso parentesco com os chimpanzés caiu para (96%), bem perto, mas não tão impressionante se compararmos isso ao nosso parentesco com a abóbora (superior a 50%). Além disso, agora as diferenças (que praticamente não existiam) estão aumentando e os povos ficando cada vez mais diferentes, sendo nós mais distantes de Homero que ele dos neanderthais… Como o que define essas variações nas medidas é se levamos em conta ou não aquilo que acreditamos que esta realmente ativo em nosso DNA, dá para entender porque tanta distorção. Nossa variedade está realmente aumentando, mas será que isso é relevante? Que tal esperar uns 50.000 anos? Eu prefiro apostar na tecnologia…

O mais importante a se ter em mente quanto ao que a ciência atual realmente percebe as raças humanas é o seguinte: Nossas variações são mínimas e em qualquer população é possível encontrar indivíduos mais parecido em outra que nela mesma. Ou seja, me mostre um alemão e eu posso encontrar um africano ou japonês geneticamente mais parecido com ele que o vizinho dele. Geneticamente, raças não existem.

No entanto, socialmente existe a segregação e as chamadas ações afirmativas são necessárias para diminuir as distorções. E é nessa hora que estranhamente as reações mais estapafúrdias aparecem. Muitas vezes são reações viscerais, irracionais mesmo. Mas acabam sempre se apoiando em racionalizações baseadas em argumentos falaciosos: O racismo não existe aqui; Ele é apenas social; Não dá para determinar quem é negro ou branco no Brasil; essas ações irão criar o racismo e não acabar com ele. E por último o muito usado “A idéia é boa mas a implementação é ruim então é melhor não fazer nada”.

Vamos analisar cada uma dessas falacias:

1- O racismo não existe no Brasil.

Não é o que diz o IBGE:

“Dados do IBGE demonstram que 36,4% dos negros tem quatro a sete anos de estudo, contra 28,1% dos brancos, enquanto 42,9% dos brancos tem mais de 11 anos de estudo, contra 24,9% dos negros. A consequência é que mais de 40% dos brancos ganham acima de três mínimos e só 17% dos negros atingem
esse patamar. Quase 64% dos negros ganham menos de dois salários mínimos.” (4)

Na verdade, quando discriminações diferentes se somam (mulheres negras), os resultados são ainda mais graves a ponto de gerar dúvidas se apenas as ações envolvendo recursos educacionais serão suficientes:

“A pesquisa mostra que a taxa de desemprego entre as mulheres negras passou de 10% em 1992 para 15,8%, em 2005, com crescimento 58%. Entre os homens negros, o desemprego subiu de 6,3% para 8,5% no mesmo período, o que representou um aumento de 33,9%.

No mesmo período as taxas de desemprego para mulheres brancas cresceram 38,8%, (de 8,2% para 11,4%) e para os homens brancos, 25,8%.(de 5,2% para 6,5%).” (5)
2 – O preconceito no Brasil é apenas social. Essas ações afirmativas deveriam apenas ser ações sociais.
Rico de raça alguma sofre segregaçao, rico não tem cor… Bom, não é bem assim. Esse tipo de comentário me faz imediatamente lembrar de um amigo, que sempre é parado nas blitz da estrada. Quanto melhor o carro, mais parado ele é.
Mas para citar um caso mais público – bastou o Ronaldo dizer “Eu que sou branco sofro com tamanha ignorância” que virou manchete nos jornais. fiquei espantado com o número de links que encontrei a respeito, mesmo depois de tanto tempo. Eu gostaria de poder dizer que a cor do Ronaldo não importa; e realmente não deveria. Mas tanta repercussão com única frase é muito diferente de nada.
3 – Não dá para determinar quem é negro, pardo ou branco no Brasil.
Bom, acho que acabei demonstrando que isso não é verdade no item anterior. Mas esse é um ponto importante. O desejável é que prevaleça o critério da auto-afirmação. Existem inúmeras vantagens por esse critério: ele promove a auto-regulação – quem mentir, por exemplo, em uma faculdade vai ter que arcar com o peso da mentira na convivência dos outros alunos; ele não prioriza um único fator de discriminação (ex. cor de pele) sobre outros, como traços físicos, por exemplo; e principalmente, ele combate o próprio auto-preconceito, pessoas que antes preferiam tentar esconder sua história passam encarar isso como vantajoso.
Desejável, porém, não quer dizer essencial. A elite brasileira é acostumada a forçar a realidade, o famoso “jeitinho” e isso pode eventualmente tornar o critério de auto-afirmação inviável. Isso seria lamentável, mas inúmeras vezes situações muito semelhantes já ocorreram em nossa sociedade. Isso não é, no entanto, motivo para não se fazer nada. Veja a falácia 5.
4 – Essas ações irão criar o racismo e não acabar com ele.
Essa falácia é na verdade uma elaboração em cima da falácia 1. A partir dai, qualquer mudança pode ser apontada como “problema” e fica muito difícil contra-argumentar com a falácia. O melhor é expor a falácia – quem pensa assim, nos EUA encararia como “problema” todos os protestos ocorridos nos anos 60 e como ausência de racismo o estado anterior, com lugares marcados para os brancos no transporte público.
5 – A idéia é boa mas a implementação é ruim então é melhor não fazer nada.
Essa falácia impõe como pré-condição uma meta impossível (uma ação perfeita do Estado, instituição frequentemente definida como “mal-necessário”) para que se faça alguma coisa. E possui uma situação reversa, onde quem não é realmente contra as quotas se abstém de reclamar de implementações ruins das mesmas. Existem muitos erros e não questioná-los só favorece a tendência a não fazer nada. Os erros devem ser questionados, apenas com a responsabilidade de propor alternativas.
Outra inverdade inserida nesse argumento é que não existe implementação boa – as mais divulgadas são justamente as mais polêmicas e com mais problemas, normalmente envolvendo as universidades federais. Porém a maior iniciativa já realizada envolve as universidades privadas. Atende a critérios sociais e a distribuição populacional, já forneceu 112 mil bolsas e promete mais 400 mil para os próximos quatro anos. É a iniciativa mais importante nessa área, mas é pouco divulgada. Mas respondeu a um processo de inconstitucionalidade, movido pelo DEM e pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino. Coisa de quem acha que dá para equilibrar uma balança empurrando os dois braços para baixo.

1 – http://www.02138mag.com/magazine/article/1488-3.html

2 – http://news.nationalgeographic.com/news/2002/09/0924_020924_dnachimp.html

3 – http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=1893020

4 – http://www.observatoriosocial.org.br/conex2/?q=node/723

5 – http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/11/17/materia.2006-11-17.6751416164/view

6 – http://prouni-inscricao.mec.gov.br/prouni/Oprograma.shtm

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