Grandes Embustes (parte 4): Democracia

Os regimes ditatoriais parecem ter lugar cativo na mente do povo. É comum ver pessoas pobres ou de classe média, muitas até bem instruídas defendendo o nosso último período de ditadura, até mesmo clamando por seu retorno. E não é só no Brasil – mesmo no Chile, existem milhares de defensores do Pinochet. Eu sempre creditei esse tipo de atitude a mero saudosismo, mas cheguei a conclusão que é muito mais que isso.

Um indício forte disso é que a repulsa que algumas pessoas possuem pelo retorno de um regime repressor é visceral. Eu sei exatamente como é por ter essa reação a idéia, ao ponto de considerar a questão como de fundo emocional, na área do nojo. Na verdade, somente com extremo trabalho de racionalização é que consigo tratar do assunto de forma mais ampla, até mesmo para escrever esse artigo.

É claro que em ambos os casos, o passado de uma pessoa vai influenciar essa reação. É claro também que muitos podem alegar seu posicionamento quanto ao assunto como uma questão de princípios. Mas é inegável que muita gente se coloca totalmente favorável ou contra a ditadura sem nenhum vínculo direto ou pessoal com a mesma e sem nenhuma reflexão mais ampla. Como disse, é uma reação emocional.

Mais difícil de entender é ver que existe um processo semelhante com as corporações. O filme “The Corporation” (1) especula a existência de uma “atração natural” por parte das corporações aos regimes ditatoriais. Seria mais que um mero oportunismo para ganhar dinheiro, que tem longa tradição, desda IBM cooperando com os nazistas durante a Segunda Guerra (2) até hoje, com a moderna Google (e também as concorrentes Yahoo e Microsoft) ajudando a China a fazer censura (3). Seria um fascínio pela possibilidade de ganhos de produtividade impostos pela ordem ditatorial que levariam as corporações a recorrerem até ao golpismo. (4)

Mas o que uma empresa teria a ganhar com um regime ditatorial, descartando o mero oportunismo?

De fato, parece existir um fator estranho na economia das ditaduras. A ditadura de Hitler foi marcada pela prosperidade (5). As outras ditaduras européias seguiram curso semelhante (6) e durante todo período de nossa última ditadura, o país teve um crescimento econômico maior que em qualquer ano da democracia que a sucedeu (7), mesmo após o fim do “milagre econômico” e mantendo um endividamento externo bem menor (8) que o alcançado durante a democracia. A China é outro exemplo de alto crescimento econômico aliado a regime ditatorial, o que fomenta a existência de pessoas tanto de orientação política de esquerda quanto de direita a sonharem com um regime repressor.

Mas qual seria o problema com a democracia, e o que levaria pessoas (tanto físicas quanto jurídicas) a posicionamentos tão diferentes quanto ao assunto? Eu acredito que isso aconteça por conta dos pré-requisitos da democracia. O conceito de democracia normalmente abrange a liberdade de expressão e a eleição do chefe de estado pelo povo. Além disso, uma boa dose de transparência em todos esse processo também é necessário, pois do contrário todo processo perde o sentido.

Acredito que seja justamente a transparência que cause tal reação dispare entre as pessoas e que incomode tanto as corporações a ponto de quererem vê-la extinta. Mas por que a transparência incomoda ou agrada tanto?

Uma vez vi na televisão uma reportagem sobre lixo. Uma das catadoras do depósito mostrou para o repórter o que havia encontrado, duas garrafas fechadas de refrigerante e um saco fechado com alguns peixes. Num daqueles momentos engraçados da TV nacional, ela declara que vai almoçar o que encontrou hoje convida o repórter para ceia – Michael Moore e Morgan Spurlock podem fazer seu merecido sucesso constrangendo os objetos de suas reportagens, mas nada é tão engraçado quanto ver o próprio reporter sendo alvo do constrangimento! Ele topou a parada e realmente apareceu na casa da senhora para filar o almoço. Mas titubeou na hora e ficou só no refrigerante (o que não sei se foi a melhor escolha…).  Saber a origem (corrupta ou não) do alimento que se consome é uma questão crítica de transparência. Tal transparência será perseguida como uma necessidade vital por quem tem a opção de escolher qual alimento vai consumir e uma coisa extremamente valorizada por quem sempre conseguiu fazer isso. Mas vejamos sobre a perspectiva de quem não tem escolha, de quem passa fome e vai consumir aquele alimento de qualquer jeito? A transparência se torna na verdade muito mais um incômodo.  Nesse aspecto, ela é simplesmente anti-econômica.

Em outras palavras, a capacidade de uma ditadura empurrar lixo para o mercado consumidor, ou em sentido mais amplo, empurrar qualquer coisa sem permitir a possibilidade de questionamento (ético, moral, ecológico, etc) é algo desejável para corporações. É uma promessa de planejamento com cem por cento de estabilidade que as seduz. Na verdade, por mais problemático que isso seja, é uma promessa de ordem em relação ao caos que o embuste de uma perseguição utópica por democracia pode se tornar.

Minha última frase pode despertar muita polêmica. Afinal, por que a busca pela democracia poderia ser “utópica” ou até mesmo um embuste?

Para começar, o conceito de democracia é vendido como um conceito binário, ou você vive em uma democracia ou vive em uma ditadura. E assim como no canibalismo, de uma forma geral, ditadores são outros países com os quais o seu país entrou em conflito. Pensar assim é um problema muito sério em termos de harmonia mundial, mas  até mesmo do ponto de vista interno é um problema.

Os ideiais da democracia demandam recursos e isso imediatamente cria um limite no quão livre um país ou alguém pode ser. Isaac Asimov mostrou isso de forma excelente com um exemplo – suponha que alguém acredite no direito de banheiro livre, o direito fundamental de uma pessoa de usar o banheiro na hora em que desejar e de ter acesso ao mesmo a qualquer momento. Mesmo sendo um conceito bastante razoável, em harmonia com a natureza humana e com muitos benefícios práticos tanto para o indivíduo quanto para coletividade, se vinte pessoas precisarem morar no mesmo apartamento com um único banheiro, esse ideal jamais será atingido.

Nesse aspecto, é fácil perceber o quão problemático é garantir a liberdade de expressão, um requisito para democracia. A liberdade de expressão é um direito natural e a sua repressão uma abominação.  Países que insistem em reprimir a liberdade de expressão merecem a reprovação mundial. Infelizmente, não é isso o que ocorre. Em alguns países, a falta de liberdade de expressão é vista pelo resto do mundo de forma caricata, como motivo de piada (Cuba é um dos melhores exemplos). Em outros, a falta de liberdade de expressão é ignorada – o filme “Fahrenheit 911” teve sua exibição proibida na atual democracia iraquiana. Tal uso irresponsável do rótulo “democracia” contribui para que um conceito tão importante se torne um mero embuste.

Mas mesmo em países onde a repressão à liberdade de expressão não é explícita, a limitação de recursos impõe limites ao sonho democrático. Nem todos tem espaço na mídia para expressar suas idéias e muitas vezes existe uma concentração de meios de comunicação (TV, rádio, jornal, …) pelo mesmo dono. Coincidentemente, os países reconhecidamente mais democráticos possuem leis que determinam severas restrições à aglomerações dessa natureza e seus povos possuem muito maior acesso irrestrito à internet.

A eleição do chefe de Estado é outro pré-requisito para democracia e outro quesito tratado de forma binária. Para perceber que a questão é muito mais complicada, basta lembrar que até mesmo o ditador Saddam Hussein era frequentemente reeleito, com 100% dos votos. Praticamente nenhum país se considera totalmente ditatorial, sem ao menos teatralizar alguma aceitação popular de seu líder. E mesmo nos países mais democráticos vemos falhas no processo, sendo a primeira eleição do W. Bush um dos melhores exemplos disso. Em outros, como no Brasil, sequer vemos falha alguma, com nossas urnas eletrônicas sem capacidade de recontagem. Tamanha perfeição é assustadora, a ponto de lembrar bastante a perfeição do processo eleitoral do Saddam Hussein.

Nesse aspecto, as questões são inúmeras. Eleições são processos muito caros e como mencionei, a natureza finita dos recursos vai interferir no processo. Que tipo de participação e representatividade tem a sociedade também é algo crítico. Essas questões são objetos de teses inteiras, passando de interesse da esfera das ciências humanas até as exatas, e por vezes sendo até analisadas pela biologia. Não pretendo me aprofundar aqui, mas ressalto novamente a falta de possibilidade de auditoria no resultado de nossas eleições, não só pela gravidade do fato mas como exemplo da fragilidade de nossa democracia.

Existe também o problema de como conciliar o conceito de democracia entre os povos. Em muitos casos, abusos são conhecidos por todos, mas o mundo democratico prefere ignorar o problema. A China é o caso mais notório, com todas as fábricas do primeiro mundo migrando para lá como se não houvesse nada de errado por ali. Mas situação semelhante ocorre em muitos outros casos, como por exemplo nas relações viciosas do Ocidente com o Oriente Médio.

E o pior de tudo é que não se trata de um problema apenas governamental, mas de um mal inerente em todas esferas humanas – governos negociam com a China sem problema algum, apesar dela ser um império que desrespeita outras soberanias. Empresas migram suas fábricas para lá atrás do lucro sem se importar em aumentar a capacidade de cópia de um país altamente pirata. Os consumidores não se mobilizam em boicotar esses produtos e as pessoas se bandeiam aos milhares para aprender mandarim, a língua do futuro. Um idioma com ótima perspectiva: aprenda a língua, conheça a cultura e seja proibido de dizer o que pensa.

O conceito de democracia não é uma falácia, um embuste. Mas para que ele faça algum sentido, ele precisa ser usado de forma racional e verdadeira. Essa dificuldade foi a maior motivação para escrever esse texto. Além da matéria ser complexa e não poder mesmo ser tratada de forma absoluta, somos bombardeados constantemente por muita atitude vazia, muito marketing, muitas falsas mensagens e falsas promessas. Um bom passo para isso é as pessoas passarem a encarar de forma muito feia – como é realmente – quem age de forma hipócrita em torno do assunto, sejam elas pessoas, empresas ou governos.

1 – http://www.thecorporation.com/

2 – http://www.ibmandtheholocaust.com/

3 – http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/4647398.stm

4 – http://en.wikipedia.org/wiki/Business_Plot

http://coat.ncf.ca/our_magazine/links/53/Plot1.html

5 – http://en.wikipedia.org/wiki/Economy_of_Nazi_Germany

6 – http://en.wikipedia.org/wiki/Economics_of_fascism

7- http://pt.wikipedia.org/wiki/Milagre_econ%C3%B4mico

8 – http://en.wikipedia.org/wiki/Economic_history_of_Brazil

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